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Charles Gore

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Bispo de Oxford
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Charles Gore
Província Província da Cantuária
Informações
Diocese Diocese de Oxford
Eleito em 17 de outubro de 1911 (confirmado)
Antecessor Francis Paget
Sucessor Hubert Burge
Outro cargo - Bispo de Worcester (1902-1905)
- Bispo de Birmingham (1905-1911)
Ordenação Dezembro de 1878
Consagração 23 de fevereiro de 1902
Nascimento Wimbledon
22 de janeiro de 1853
Morte Kensington
17 de janeiro de 1932 (78 anos)
Nacionalidade Britânico
Denominação Igreja da Inglaterra
Progenitores Mãe: Augusta Lavinia Priscilla Gore (nascida Ponsonby)
Pai: Charles Alexander Gore
Alma mater Balliol College

Charles Gore, C.R. (nascido em 22 de janeiro de 1853 e falecido em 17 de janeiro de 1932) foi um teólogo britânico e bispo da Igreja da Inglaterra.[1] Ele via a crítica bíblica e as ciências naturais de forma positiva e fez com que a Igreja da Inglaterra abordasse as questões sociais da época, ao mesmo tempo, em que trabalhava para a reconstrução de um sistema monástico anglicano.[2]

Família e educação

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Charles Gore nasceu em 22 de janeiro de 1853 em uma família aristocrática anglo-irlandesa, filho de Charles Alexander Gore e Lady Augusta Ponsonby.[3] Seu avô paterno era o Conde de Arran, o avô materno era o Conde de Bessborough e seu irmão, Spencer, foi o primeiro campeão nacional de tênis da Inglaterra.[4]

Gore foi criado em uma família anglicana de tradição baixa[1][5][6] e foi confirmado pela igreja aos oito anos de idade.[7] Ele foi atraído pela tradição sacramental e pelo ritualismo do anglo-catolicismo desde jovem. Por volta dos nove anos de idade, ele leu o romance anticatólico de Grace Kennedy, Padre Clemente.[1][3][5] O livro serviu como sua introdução à tradição da alta igreja e, em vez de ter seu protestantismo reforçado como a autora pretendia, ele se viu fascinado pela tradição católica.[1][5] Na adolescência, começou a frequentar igrejas mais sacramentais.[6]

Os pais de Gore o enviaram para a Harrow School, em Londres, em 1866, onde ele se destacou academicamente.[5][7] Ele então foi para o Balliol College, em Oxford, em 1871, onde apoiou o movimento sindical. Ele se formou em 1875 com um diploma de primeira classe em literae humaniores.[1]

Acadêmico

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Em 1875, Gore foi eleito membro do Trinity College, Oxford, e lecionou lá até 1880.[1][3]

Gore foi ordenado diácono anglicano em dezembro de 1876 e padre anglicano em dezembro de 1878, pelo Bispo de Oxford, Dr. J. F. Mackarness.[1] Durante vários anos, Gore dedicou todo o tempo livre que lhe era dispensável, entre suas obrigações em Oxford e as férias necessárias, ao trabalho paroquial na paróquia de Santa Margarida, em Toxteth Park, Liverpool. Mas ele nunca recebeu licença para o sacerdócio lá.[3] De 1880 a 1883, atuou como vice-diretor do Cuddesdon Theological College.[8]

Em 1884, com a fundação da Pusey House em Oxford, em parte como memorial ao professor Edward Bouverie Pusey, liderança do Movimento de Oxford, e como sede da biblioteca dele, Gore foi nomeado diretor, cargo que ocupou até 1893.[9]

Em 1889, ajudou a fundar a União Social Cristã (da qual foi um dos dois vice-presidentes).[4]

Ele também foi o fundador e primeiro superior da Comunidade da Ressurreição.[10] No Dia de São Tiago, 25 de julho de 1892, os seis irmãos fundadores fizeram sua profissão formal na Capela da Pusey House.[3] A fraternidade masculina adotou voto de celibato, hábito e disciplina monástica.[11]

A Comunidade da Ressurreição inicialmente residiu em Pusey House, mas logo mudou-se para Radley, perto de Oxford, junto com Gore, e em 1898 para sua sede atual em Mirfield, Yorkshire,[4] razão pela qual se tornou conhecida como Padres Mirfield.[11]

Embora a comunidade seguisse um dia litúrgico familiar aos monges católicos romanos, Gore e os outros fundadores queriam que ela se envolvesse em ação social. Cinco dos seis membros fundadores pertenciam à União Social Cristã, daí a decisão de se estabelecerem no norte industrial, entre Wakefield e Huddersfield.[12] Um dos membros mais conhecidos da comunidade foi Trevor Huddleston, ativista anti-apartheid e bispo.[4]

Em 1894, Gore tornou-se cônego da Abadia de Westminster, onde ganhou grande influência como pregador.[4][9] Em julho de 1901, foi nomeado capelão ordinário do rei Eduardo VII,[13] embora tenha renunciado ao cargo ao ser elevado a bispo.[14]

Com o aumento da tensão entre o governo britânico e as repúblicas bôeres, Gore denunciou o imperialismo britânico e, quando a guerra começou em 1899, o cônego denunciou a política britânica de prender civis bôeres em campos de detenção, onde a taxa de mortalidade era muito alta. Ele escreveu uma carta contundente sobre o assunto para o jornal The Times. No dia seguinte, houve uma resposta igualmente contundente de um cônego da Catedral de Worcester. A região de Worcester era a base política de Joseph Chamberlain, o Secretário Colonial cuja política Gore denunciava. Poucos dias depois, Gore foi nomeado Bispo de Worcester.[4]

Episcopado

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Bispo Charles Gore em 1918

Em novembro de 1901, Gore foi indicado para suceder J.J.S. Perowne como Bispo de Worcester.[15] A nomeação causou controvérsia, inclusive com habitantes de Worcester realizando uma reunião pública para expressar sua indignação, enquanto a Associação da Igreja tomou medidas ativas para impedir sua consagração.[3]

Após audiências legais subsequentes, Gore foi consagrado bispo em uma cerimônia simples no Palácio de Lambeth em 23 de fevereiro de 1902, pelo Arcebispo Frederick Temple. Antes de sua consagração, ele renunciou ao cargo de Superior da Comunidade da Ressurreição, à sua filiação à União da Igreja Inglesa e à Confraria do Santíssimo Sacramento.[3] Como bispo de Worcester, ele se recusou a morar no Castelo de Hartlebury.[3]

Gore percebeu que as necessidades de Birmingham e das áreas rurais circundantes eram bastante diferentes e imediatamente começou a defender uma divisão. Chamberlain, que passou a respeitar e admirar Gore, ajudou a conduzir a legislação necessária pelo Parlamento.[4]

Em dezembro de 1904, Gore foi nomeado o primeiro Bispo de Birmingham, a nova sé que ele ajudou a criar dividindo sua sé de Worcester. Foi entronizado na Catedral de Birmingham em 2 de março de 1905. Em Birmingham, viveu de forma simples.[3]

Poucos meses após sua entronização, tornou-se elegível para um lugar no banco episcopal da Câmara dos Lordes, e tomou posse em 19 de fevereiro de 1906. Em 3 de agosto, fez seu primeiro discurso, opondo-se ao Projeto de Lei de Educação do Governo Liberal por considerá-lo "contrário ao Liberalismo".[3]

Em 1911, sucedeu a Francis Paget como Bispo de Oxford e Chanceler da Ordem da Jarreteira. Tomou posse legal da sé pela confirmação da sua eleição em 17 de outubro de 1911 em St Mary-le-Bow por Alfred Cripps, Vigário-Geral da Província da Cantuária.[16]

Em 1912, foi um dos dois únicos bispos a apoiar e votar na Câmara dos Lordes a favor do Projeto de Lei para a Separação da Igreja do Estado no País de Gales. Com a Primeira Guerra Mundial, ele defendeu a necessidade universal de penitência e oração, enfatizou ao clero os deveres especiais que lhes eram impostos pelas exigências da época, defendeu um tratamento justo para os objetores de consciência, ao mesmo tempo em que se afastou veementemente de suas opiniões. No outono de 1918, ele fez sua única visita à América e logo após seu retorno, anunciou sua decisão de renunciar à sé em junho. Queria dedicar seus últimos anos a estudar, escrever e pregar.[3]

Recebeu títulos de Doutor Honoris Causa em Divindade de várias universidades, incluindo a Universidade de Atenas, a Universidade de Birmingham, a Universidade de Oxford, a Universidade de Durham e a Universidade de Edimburgo.[17]

Aposentadoria

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Gore renunciou em 1919 e retirou-se para Londres,[8] onde morou como inquilino das autoridades paroquiais de All Saints, Margaret Street. Lá permaneceu por vários anos, celebrando regularmente na igreja e na capela das irmãs nas proximidades. Ao mesmo tempo, Gore se juntou à Capela Grosvenor, na South Audley Street, e foi licenciado pelo Reitor de St George's, Hanover Square, em cuja paróquia essa capela se encontra, tornando-se assim, pela primeira vez em sua vida, um cura licenciado.[3]

Ainda em 1919, tornou-se professor de teologia no King's College e foi nomeado Governador Vitalício. De 1924 a 1928, foi Decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Londres. Também atuou no Conselho de Ministros Cristãos sobre Questões Sociais, na Cruzada Social Cristã, na Associação Cristã Industrial, no Conselho Geral da Liga das Nações, na Missão de Oxford a Calcutá, na Missão das Universidades à África Central, no Conselho de Administração da Pusey House, na Conferência Mundial sobre Fé e Ordem e no Comitê das Igrejas Orientais do Arcebispo.[4]

Em 1923, foi nomeado pelo Arcebispo da Cantuária como um dos seus indicados para participar nas Conversas de Malines com a Igreja de Roma, que haviam sido inauguradas dois anos antes por Lord Halifax. Até o fim da vida, o Dr. Gore permaneceu anti-romano. Contudo, foi um defensor fervoroso e enérgico da Liga da Vida Nacional, uma sociedade composta em grande parte por católicos romanos, cujo objetivo era combater o controle de natalidade. Também continuou ligado ao Movimento Católico na Igreja Anglicana.[3]

Fez sua terceira viagem à Índia no final de 1930, como parte da Missão de Oxford a Calcutá, retornando na primavera de 1931; tanto trabalho o deixou exausto e afetou sua saúde. Em decorrência da pneumonia, Gore morreu em 17 de janeiro de 1932 em Kensington, Londres. Ele deixou instruções para que seu corpo fosse cremado e as cinzas levadas para Mirfield para sepultamento.[3] Sua capa pluvial e mitra permanecem na Capela Grosvenor.[18]

Pensamento

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Sua posição no Movimento de Oxford foi importante para a direção de sua apologética e de sua pesquisa histórica, que visava reconciliar a fé cristã com o progresso da ciência; ele também dirigiu o grupo de socialistas cristãos.[19]

Gore expôs a visão anglo-católica da igreja como a legítima sucessora dos Apóstolos em suas obras. Defendia a correlação entre a teologia cristã com o conhecimento científico e histórico e sua tradução na ação social. Essa convicção encontrou expressão em Lux Mundi: Uma Série de Estudos sobre a Religião da Encarnação (1889), editada por Gore e que se tornou um texto fundamental do anglo-catolicismo liberal.[10]

O capítulo de Gore em Lux Mundi levantou debates entre seus conterrâneos, por sua afirmação de que textos do Antigo Testamento não eram acurados historicamente. Foi criticado especialmente por sua Teoria Kenótica da Encarnação, onde defendeu que Jesus, ao assumir as limitações da natureza humana, aceitou as limitações do conhecimento humano. Dois anos depois, Gore foi convidado a proferir a série anual de palestras Bampton, quando aproveitou a oportunidade para esclarecer sua posição e reafirmar sua ortodoxia fundamental.[4]

No fim de sua vida, ele foi acusado de se afastar dos princípios que defendera em Lux Mundi e de negar aos outros a liberdade de investigação que reivindicara para si. Gore sempre negou veementemente essas acusações. Ainda em 1887, em um sermão pregado na Universidade de Oxford, ele havia enfatizado a liberdade de opinião sobre um assunto como a doutrina da Inspiração, que a Igreja não havia definido, e as verdades do Credo, que o clero não podia negar nem considerar como questões em aberto.[3] Ele chegou a protestar contra a eleição de um bispo que negava os milagres físicos registrados nos evangelhos.[20]

Gore é lembrado na Igreja da Inglaterra com uma comemoração em 17 de janeiro.[21] Ele é homenageado no calendário da Igreja Episcopal em 14 de janeiro com Richard Meux Benson.[22][23]

A Abadia de Westminster hospeda as Charles Gore Memorial Lectures, uma série de palestras anuais em memória de seu ex-cônego.[24]

Obras publicadas

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Estátua de Charles Gore, por Thomas Stirling Lee, em frente da Catedral de Birmingham

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 Wilkinson, Alan (23 de setembro de 2004). «Gore, Charles (1853–1932)». www.oxforddnb.com. doi:10.1093/ref:odnb/33471. Consultado em 3 de novembro de 2025
  2. Gregersen, Niels Henrik (23 de abril de 2023). «Charles Gore». Lex (em dinamarquês). Consultado em 3 de novembro de 2025
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Crosse, Gordon. «Charles Gore: A Biographical Sketch by Gordon Crosse». anglicanhistory.org. Consultado em 3 de novembro de 2025
  4. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 «Charles Gore, Bishop and Theologian». justus.anglican.org. Consultado em 4 de novembro de 2025
  5. 1 2 3 4 Cadwell, Matthew Peter (19 de dezembro de 2013). «In Search of Anglican Comprehensiveness: A Study in the Theologies of Hooker, Maurice, and Gore» (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2025
  6. 1 2 PARKER-MCGEE, ROBERT (2016). «Charles Gore and the Theology of Priesthood (MA Thesis)». Durham University. Consultado em 3 de novembro de 2025
  7. 1 2 Tudesco, J. P. (1 de março de 1976). «The Christian Intellectual and Social Reform: Charles Gore and the Founding of the Christian Social Union». Journal of Church and State (em inglês) (2): 273–288. ISSN 0021-969X. doi:10.1093/jcs/18.2.273. Consultado em 3 de novembro de 2025
  8. 1 2 Waddell, Peter (2014). Charles Gore: Charles Gore and his writings. Col: Canterbury Studies in Spiritual Theology. London: Hymns Ancient & Modern. ISBN 978-1-84825-654-5
  9. 1 2 Lagassé, Paul; Columbia University (2000). The Columbia encyclopedia. Internet Archive. [S.l.]: New York : Columbia University Press ; [Detroit] : Sold and distributed by Gale Group. Consultado em 3 de novembro de 2025
  10. 1 2 «Charles Gore | Victorian theologian, Anglican priest | Britannica». www.britannica.com (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2025
  11. 1 2 «Charles Gore». Store norske leksikon (em norueguês). 24 de fevereiro de 2025. Consultado em 3 de novembro de 2025
  12. «The levelling of Mirfield church». www.telegraph.co.uk. 13 de novembro de 2009. Consultado em 4 de novembro de 2025
  13. «Issue 27336». The London Gazette. 23 de julho de 1901. Consultado em 4 de novembro de 2025
  14. «Issue 27393». The London Gazette. 3 de janeiro de 1902. Consultado em 4 de novembro de 2025
  15. «Issue 27389». The London Gazette. 20 de dezembro de 1901. Consultado em 4 de novembro de 2025
  16. «Church news». Church Times. 20 de outubro de 1911. Consultado em 4 de novembro de 2025
  17. Aldrich, Richard; Gordon, Peter (1 de abril de 2016). Dictionary of British Educationists (em inglês). [S.l.]: Routledge. ISBN 978-1-317-94931-2. Consultado em 3 de novembro de 2025
  18. «The Grosvenor Chapel - Feast of Dedication». www.grosvenorchapel.org.uk (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2025
  19. «Gore, Charles - Enciclopedia». Treccani (em italiano). Consultado em 3 de novembro de 2025
  20. «Bishop Gore's protest». www.churchtimes.co.uk. Consultado em 4 de novembro de 2025
  21. «The Calendar». www.churchofengland.org. Consultado em 3 de novembro de 2025
  22. «Richard Meux Benson, Priest and Vowed Religious, 1915 and Charles Gore, Bishop and Vowed Religious, 1932». The Episcopal Church (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2025
  23. «January 14 - Benson and Gore». The Feast Days (em inglês). Consultado em 4 de novembro de 2025
  24. «Charles Gore Memorial Lectures». Westminster Abbey (em inglês). Consultado em 4 de novembro de 2025

Ligações externas

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