Frei Gabriel Maria Nicolas
Gabriel Maria | |
|---|---|
| Gravura com o Beato Gabriel Maria Nicolas, fundador da Ordem das Monjas da Anunciação | |
| Confessor, presbítero e religioso professo da Ordem dos Frades Menores | |
| Nascimento | c. 1460 Riom, Auvérnia, Reino da França |
| Morte | 27 de agosto de 1532 Rodez, Aveyron, Reino da França |
| Nome de nascimento | Gilbert Nicolas |
| Nome religioso | Frei Gabriel Maria |
| Veneração por | Igreja Católica |
| Festa litúrgica | 27 de agosto |
Frei Gabriel Maria Nicolas (c. de 1460, perto de Riom - 27 de agosto de 1532, em Rodez) foi um sacerdote francês da Ordem dos Frades Menores e fundador da Ordem da Anunciação, com Santa Joana de Valois. Leão XIV aprovou sua beatificação equipolente em 21 de fevereiro de 2026.
Biografia
[editar | editar código]Gilbert Nicolas nasceu em Riom, Auvérnia, por volta de 1460. Não se tem muitas informações sobre sua família, nem de sua vocação. Foi inspirado pela pregação popular dos frades franciscanos sobre a Imaculada Conceição, e desejou consagrar-se inteiramente à Virgem Maria. Após percorrer um longo caminho a pé, foi admitido como noviço dos Frades da Observância no convento de Notre-Dame de Lafond, em La Rochelle, onde recebeu sua formação inicial e fez seus votos religiosos entre 1476 e 1478. Após se tornar sacerdote, ensinou teologia moral a jovens irmãos em formação por cerca de vinte anos.[1][2]
Anos depois, entrou em contato com a princesa Joana quando foi convidado pelo padre Jean de la Fontaine para substituí-lo ocasionalmente como confessor da princesa. A presença do padre Gilbert na corte de Joana da França é mencionada explicitamente apenas em 1498, ano do julgamento para a anulação do casamento entre a princesa e Luís XII, que pretendia se casar novamente.[1]
Luís XII concedeu a Joana o Ducado de Berry e em 1499, ela entrou em sua capital, Bourges, onde desenvolveu seu objetivo de fundar uma nova ordem religiosa. O padre Gilbert continuou junto de Joana; ele enviou dois dos seus sobrinhos a Tours para recrutar jovens mulheres para se tornarem freiras da nova Ordem. Ele próprio viajou para Tours e conseguiu convencer uma dúzia de jovens mulheres. Assim, em 27 de maio de 1500, as primeiras postulantes entraram na casa.[1]
Coube ao padre Gilbert a responsabilidade de redigir uma regra para a nova comunidade; além disso, ele foi a Roma para obter a aprovação do Papa Alexandre VI. O Cardeal Giovanni Baptista Ferrari, datário do papa, ajudou a convencer o Colégio de Cardeais a contornar as leis do Quarto Concílio de Latrão, que impediam a aprovação de novas regras religiosas, e permitiu que o Papa, em 12 de fevereiro de 1502, aprovasse a regra da Anunciação.[1] Segundo a tradição, o Cardeal Ferrari, que tinha grande influência no Colégio, teria tido um sonho onde Deus o repreendia por se recusar a aprovar a nova ordem. Nesse sonho, o cardeal viu São Lourenço, o Diácono, e São Francisco de Assis estendendo os braços sobre Gabriel Maria em gesto de bênção. O Datário Apostólico acordou com uma forte impressão desse sonho. Após uma oração e refletir sobre o assunto, chamou o Padre e relatou sua experiência; ele então foi até o Papa, solicitando sua aprovação para a nova Ordem.[3]
O padre Gilbert foi nomeado superior canônico da nova ordem religiosa. Em 15 de maio de 1502, foi eleito pelo Capítulo dos Frades Observantes de Albi como Vigário Provincial da Aquitânia, cargo que ocupou pelos três anos seguintes. Dedicou-se à administração de sua província religiosa e a frequentes viagens, que manteve até sua morte. Em 1504, realizou a primeira visita canônica à comunidade de Bourges e, no Pentecostes daquele ano, novamente em Bourges, recebeu a profissão privada de votos da Duquesa Joana. Em 21 de novembro daquele ano, as freiras tomaram posse do novo convento e estabeleceram seu claustro perpétuo. Menos de três meses depois, porém, Joana faleceu. Durante um ano, até a Páscoa de 1506, permaneceu ausente do mosteiro de Bourges, retornando apenas para a consagração da igreja da Anunciação. Quando concluiu seu mandato provincial na Aquitânia, tornou-se guardião do convento de Amboise.[1]

Em 1507, o Papa Júlio II confirmou as regras da Ordem da Anunciação e concedeu novos privilégios às freiras, em resultado de novas negociações por parte do padre Gilbert. No Pentecostes de 1511, o Capítulo Geral o nomeou Vigário Geral da Observância Cismontana, com autoridade sobre o norte e o leste da Europa.[1]
O Papa Leão X aprovou duas confrarias associadas à ordem religiosa fundada por Joana de Valois. Entre 1511 e 1513, ao passar por Toledo, descobriu o primeiro mosteiro das Irmãs da Imaculada Conceição. Como as Ordens da Anunciação e da Imaculada Conceição compartilhavam características em comum, Leão X aprovou sua fusão, a partir da elaboração de uma regra comum. O Capítulo Geral, realizado em Antuérpia em junho de 1514, reuniu oficialmente as Irmãs da Anunciação e da Conceição e as colocou sob a autoridade dos Frades da Observância. Nesse mesmo período, Gilbert foi eleito vigário provincial da França.[1] No Pentecostes de 1517, durante o Capítulo Geral da Ordem, os frades cismontanos elegeram-no seu primeiro Comissário Geral.[2]
Em 1518, Leão X decretou a mudança de nome de Gilbert Nicolas para Gabriel Maria. Em 1521, o Ministro Geral nomeou Frei Gabriel Maria como Visitador das Províncias da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Dois anos depois, no Capítulo Geral de Burgos, foi eleito Definidor Geral e nomeado Visitador das Províncias de Colônia, Saxônia e Turíngia. Também foi inquisidor na Alemanha para os conventos da Ordem Franciscana. Em 1524, foi eleito Ministro Provincial por seus irmãos na Provença e, dois anos depois, o Capítulo Geral o nomeou Comissário do grande convento dos Cordeliers em Paris.[2]
Nos últimos três anos de vida, sua saúde piorou. Quando se dirigia para a Congregação Geral em Toulouse, em 29 de maio de 1532, parou no mosteiro da Anunciação de Rodez, gravemente doente, e decidiu não prosseguir a viagem.[2] Em 27 de agosto, após o almoço, Frei Gabriel Maria recolheu-se ao seu quarto, pedindo ao frade que o acompanhava que rezasse as Vésperas. Ao último versículo do Magnificat, ele faleceu.[1]
Processo de beatificação
[editar | editar código]Culto " ab immemorabili tempore praestito "
O culto do Frei Gabriel Maria começou logo após sua morte. Seus restos mortais foram expostos para veneração dos fiéis e das freiras e depois sepultado junto ao altar-mor da igreja do mosteiro de Rodez.[1]
Em 7 de fevereiro de 1625, o bispo de Rodez, Bernardino de Corneilhan, promoveu a elevatio de seu corpo.[1][2] Dois anos depois, o padre Jean Blancone escreveu a primeira biografia do Frei Gabriel Maria, cuja memória era celebrada anualmente no aniversário de sua morte pelas freiras da Anunciação. Em 1642, o capelão da Anunciação de Rodez foi incumbido por Corneilhan de investigar os milagres atribuídos à sua intercessão. Apesar das testemunhas, a investigação não apresentou novos resultados.
Em 28 de outubro de 1647, o Papa Inocêncio X concedeu indulgência plenária àqueles que visitassem a Igreja da Anunciação no dia da comemoração de Gabriel Maria, que então recebeu o título de Santo. Uma indulgência de sete anos, sob as mesmas condições, foi também concedida em 2 de setembro de 1680 pelo Papa Inocêncio XI, que também restabeleceu o título de Santo para o padre.[1][2]
Seu culto consta dos martirológios dos santos franciscanos desde 1638, avançou no século XX, graças ao restabelecimento na França da Ordem da Virgem Maria e dos Frades Menores. Em 11 de fevereiro de 1905, a Ladainha do Beato Gabriel-Maria, composta pelo mosteiro de Villeneuve-sur-Lot, recebeu o imprimatur.[1] Em 13 de dezembro de 1916, foi emitido um decreto sobre documentos do padre franciscano.[4]
Anos mais tarde, se iniciou um processo canônico, a partir de um Processo Informativo Ordinário para a Confirmação do Culto Imemorial, celebrado na diocese de Agen em 25 sessões, de 17 de junho de 1925 a 8 de abril de 1927, seguido de importantes pesquisas científicas sobre a vida e a obra do Frei Gabriel Maria.[1] O processo apostólico teve início em 20 de maio de 1927, sendo retomado em 2003.[4]
Por ocasião do quinto centenário da fundação da Ordem da Anunciação, foram realizadas duas conferências, em Paris, em 2002, e em Clermont-Ferrand, em 2006, que trouxeram novas contribuições históricas e teológicas sobre a sua figura.[1] De 28 de fevereiro de 2013 a 2 de junho de 2015, ocorreu uma investigação diocesana na diocese de Créteil.[1] O dossiê Positio foi publicado em 2021.[4] A Congregação Ordinária de Cardeais e Bispos do Dicastério para as Causas dos Santos, foi favorável sobre o exercício heroico das virtudes quanto sobre o culto ab immemorabili tempore praestito do Frei Gabriel Maria.[1]
Assim, em 21 de fevereiro de 2026, o Papa Leão XIV recebeu em audiência o Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, e autorizou o Dicastério a promulgar o Decreto sobre as virtudes heroicas e a confirmação do culto desde tempos imemoriais (beatificação equipolente) do Servo de Deus Frei Gabriel Maria.[5][6][7]
Obras
[editar | editar código]Muitos dos escritos de Gabriel Maria sobre a Observância e para as Anunciações (incluindo seus terciários) foram editados por F.M. Delorme, em La France Franciscaine 9-11 (1926-1928). Abaixo uma lista irregular de algumas obras individuais do beato:[8]
- Sermons sur la Règle des vertus et plaisirs de la Vierge Marie (1502) [comentário espiritual sobre a regra da Ordem da Anunciação]
- Quaedam brevis declaratio super securitate status Observantinorum (1503).
- Quaestio cuiusdam doctoris Theologiae super regula S. Francisci ad litteram (Nürnberg, 1513; Basel, 1517/). Uma edição revisada (Leipzig, 1516) foi publicada sob o título: Tractatus novus in quo vere et clare ostenditur qui sunt veri observatores regulae divi Francisci ad litteram, ad litteram, ad litteram.
- Novus Tractatus de Decem Plagis Paupertatis Fratrum Minorum vel ab Aliquibus Nuncupatur Bonus Pastor (Rouen, 1514/1516/Luxembourg, 1626).
- Statutz generaulx des seurs de la Vierge Marie (1526)
- Règle du Tiers Ordre St. François de Soeurs de Chasteaugontier vivantes en obédience, chasteté, pauvreté et closture
- Tractatus de Confraternitate de decem Ave Maria (Nürnberg, 1513).
- Lunetae Confessorum: Toulouse Bibl. Municipale 257 ff. 1-127 [inc. f. 1r: ‘Incipit liber noviter editus a Reverendo Patre fratre Gilberto Nicolai, ordinis Minorum Observantiae, intitulus Lunetae Confessorum.’ Obra em três partes.
- Le Bon Pasteur, ou Traité des dix plaies de la pauvreté des frères mineurs, ed. & trans. P. Damien Vorreux (Le Bartèu, 1998).
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 «Gabriel-Maria (al secolo: Gilbert Nicolas)». www.causesanti.va (em italiano). Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 «Leone XIV approva il culto del beato Gabriele Maria Nicolas». OFM.org (em inglês). Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- ↑ «GENESIS OF THE RULE OF THE TEN VIRTUES OF THE MOST B.V.M. - Anuncjatki - Zakon Najświętszej Maryi Panny» (em polaco). 26 de março de 2018. Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 «1532». newsaints.faithweb.com. Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- ↑ «Promulgazione di Decreti del Dicastero delle Cause dei Santi». press.vatican.va. Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- ↑ https://a-piu.it. «Leone XIV approva il culto del beato Gabriele Maria Nicolas». OFM.org (em inglês). Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- ↑ «Dois novos beatos e três veneráveis para a Igreja - Vatican News». www.vaticannews.va. 21 de fevereiro de 2026. Consultado em 22 de fevereiro de 2026
- ↑ «FRANAUT-G». franciscanauthors.rich.ru.nl. Consultado em 22 de fevereiro de 2026
Ligações externas
[editar | editar código]- «Saint of the Day – 27 August – Blessed Gabriel Mary Nicholas OFM (c1463-1532) Confessor, Priest» (em inglês). AnaStpaul
- «Frère Gabriel-Maria Nicolas, un futur saint pour les franciscains?» (em francês). La Croix
- Mortos em 1532
- Nascidos na década de 1460
- Naturais da Auvérnia
- Franciscanos da França
- Padres católicos da França
- Fundadores de ordens religiosas
- Escritores católicos da França
- Escritores em latim
- Padres católicos do século XV
- Padres católicos do século XVI
- Franceses do século XV
- Franceses do século XVI
- Escritores católicos do século XVI
- Beatos da França
- Beatos franciscanos
- Pessoas beatificadas pelo papa Leão XIV
