Gilda
| Gilda | |
|---|---|
"Jamais houve uma mulher como Gilda", anunciava o cartaz promocional do filme | |
| No Brasil | Gilda |
| Estados Unidos 1946 • p&b • 110 min | |
| Género | drama, film noir |
| Direção | Charles Vidor |
| Roteiro | Jo Eisinger Marion Parsonnet |
| História | E.A. Ellington |
| Elenco | Rita Hayworth Glenn Ford |
| Companhia produtora | Columbia Pictures |
| Idioma | inglês |
| Receita | US$ 6 milhões[1] |
Gilda (bra: Gilda[2]) é um filme noir americano de 1946, dirigido por Charles Vidor e estrelado por Rita Hayworth e Glenn Ford.
O filme é conhecido pela fotografia luxuosa do diretor de fotografia Rudolph Maté, pelo cenário glamouroso, pelos figurinos criados por Jean Louis para Hayworth (especialmente nos números de dança) e pela coreografia de Jack Cole nas canções “Put the Blame on Mame” e “Amado Mio”, interpretadas por Anita Ellis. Ao longo dos anos, Gilda conquistou status de clássico cult.[3][4][5] Em 2013, o filme foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso, por ser considerado “cultural, histórica ou esteticamente significativo”.[6][7][8]
Enredo
[editar | editar código]Johnny Farrell, um americano recém-chegado a Buenos Aires, na Argentina, ganha dinheiro de marinheiros nos cais da cidade jogando dados viciados. Ele é salvo de uma tentativa de assalto por um estranho, Ballin Mundson. Mundson conta a Farrell sobre um cassino ilegal de alto nível na cidade, mas o alerta para não trapacear lá. Após ganhar no blackjack contando cartas, Farrell é levado para conhecer o dono do cassino, que acaba sendo o próprio Mundson. Farrell convence Mundson a contratá-lo e logo se torna seu gerente de confiança.
Mundson retorna de uma viagem aos Estados Unidos e anuncia que tem uma nova esposa extremamente bela, Gilda, com quem se casou após conhecê-la por apenas um dia. Farrell e Gilda reconhecem-se imediatamente do passado, embora ambos neguem isso quando Mundson os questiona. Mundson encarrega Farrell de vigiar Gilda. Ela passa a se envolver com outros homens a qualquer hora, em esforços cada vez mais explícitos para enfurecer Farrell, que, em resposta, torna-se cada vez mais cruel e ressentido com ela.
Mundson recebe a visita de dois mafiosos alemães. A organização deles havia financiado um cartel de tungstênio, registrado inteiramente em nome de Mundson para ocultar sua ligação com o esquema. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, eles decidem que é seguro retomar o controle do cartel, mas Mundson se recusa a transferir a propriedade. Desconfiada dos alemães, a polícia argentina designa o agente Obregón para tentar obter informações de Farrell, mas ele nada sabe sobre esse aspecto das operações de Mundson.
Os alemães retornam ao cassino durante a celebração do Carnaval, e Mundson atira e mata um deles. Farrell corre para levar Gilda a um local seguro. Sozinhos na casa de Mundson, eles têm outro confronto e, após declararem ódio eterno um pelo outro, se beijam apaixonadamente. Ao ouvirem a porta da frente bater, percebem que Mundson os ouviu. Consumido pela culpa, Farrell o persegue até um avião particular que o aguardava. O avião explode no ar e cai no oceano. Mundson consegue saltar de paraquedas e sobreviver, mas Farrell, sem saber disso, conclui que ele morreu.
Gilda herda a fortuna de Mundson, e ela e Farrell se casam imediatamente. No entanto, Farrell não consegue deixar de lado seu ressentimento e desconfiança em relação a ela. Ele a deixa viver sozinha e ainda manda que seus homens a sigam dia e noite para impedi-la de ver qualquer outra pessoa. Gilda tenta várias vezes escapar do casamento tortuoso, mas Farrell frustra todas as tentativas.
Obregón confisca o cassino de Farrell e lhe informa que Gilda nunca foi realmente infiel nem a Mundson nem a ele, o que leva Farrell a tentar se reconciliar com ela enquanto se prepara para voltar aos Estados Unidos. Nesse momento, Mundson reaparece, revelando que fingiu o próprio suicídio. Ele tenta matar Gilda e Farrell, mas o funcionário do cassino, Tio Pío, o apunhala fatalmente pelas costas. Quando Obregón chega, Johnny tenta assumir a culpa pelo assassinato, mas Obregón aponta que Mundson já havia sido declarado legalmente morto. Farrell entrega a Obregón documentos comprometedores retirados do cofre de Mundson. Ele e Gilda finalmente se reconciliam, concordando em voltar para casa juntos.
- Johnny Farrell (Glenn Ford) e Gilda (Rita Hayworth)
- "Gilda, você está decente?"
Elenco
[editar | editar código]| Ator/Atriz | Personagem |
|---|---|
| Rita Hayworth | Gilda Farrell |
| Glenn Ford | Johnny Farrell |
| George Macready | Ballin Mundson |
| Joseph Calleia | Detetive Maurice Obregon |
| Steven Geray | Tio Pio |
| Joe Sawyer | Casey |
| Gerald Mohr | Capitão Delgado |
| Robert E. Scott | Gabe Evans |
| Donald Douglas | Thomas Langford |
- Notas do elenco
- Anita Ellis dublou a voz cantada de Rita Hayworth.
Produção
[editar | editar código]Gilda foi desenvolvido pela produtora Virginia Van Upp como um veículo para Rita Hayworth, que até então era conhecida principalmente por seus papéis em comédias musicais.[9] A história estava originalmente planejada como um filme americano de gângsteres, dirigido por Edmund Goulding.[10] No entanto, o local da narrativa foi alterado para Buenos Aires após objeções do censor Joseph Breen e a substituição de Goulding por Charles Vidor.[10]
O filme foi rodado entre 4 de setembro e 10 de dezembro de 1945.[9][10] Durante as filmagens, Hayworth e Ford iniciaram um romance que duraria até Hayworth ser diagnosticada com doença de Alzheimer no início da década de 1980.[11][12][13][14]
Recepção
[editar | editar código]Quando lançado pela primeira vez, o filme recebeu críticas de mistas a positivas. A revista Variety gostou do filme e escreveu: “Hayworth é fotografada da maneira mais sedutora possível. Os produtores não criaram nada sutil na projeção de seu s.a. [apelo sexual], e isso provavelmente foi uma escolha acertada. Glenn Ford é o contraponto, em seu primeiro papel no cinema em vários anos... Gilda é claramente uma produção cara — e isso transparece. A direção é estática, mas isso é mais culpa dos roteiristas”.[16]
Ao resenhar o filme para o The New York Times, Bosley Crowther fez uma crítica negativa, admitindo que não gostou nem entendeu o filme, mas elogiou Ford por demonstrar “certa resistência e compostura no papel de um jovem jogador durão”.[17]
Gilda foi exibido em competição no Festival de Cannes de 1946, a primeira edição do festival.[18] Em seu lançamento, o filme arrecadou US$ 3.750.000 de bilheteria nos Estados Unidos e no Canadá,[19] e US$ 6 milhões mundialmente.[1]
Em retrospecto, o filme passou a ser amplamente aclamado pela crítica. O site de críticas Rotten Tomatoes informou que 90% das avaliações eram positivas ao filme, com base em 67 resenhas. O consenso dos críticos do site afiam: "Rita Hayworth sustenta Gilda apenas com a força de sua presença em cena, tornando a história, um tanto mediana, do filme quase irrelevante".[20] Mais recentemente, o crítico Emanuel Levy escreveu uma crítica favorável: “Apresentando Rita Hayworth em sua atuação mais conhecida, Gilda, lançado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, extrai grande parte de seu poder peculiar da mistura de gêneros e da forma como seus personagens interagem entre si... Gilda é um cruzamento entre um noir duro dos anos 1940 e o ciclo dos chamados ‘filmes femininos’. Imbuído de uma perspectiva moderna, o filme é notável na maneira como lida com questões sexuais”.[21]
Mike D’Angelo, do The A.V. Club, afirmou que “parte do fascínio de Gilda está na forma como ele complica a ideia da femme fatale. (...) Hayworth interpreta Gilda com uma camada de bravata que mascara uma profunda insegurança”; no entanto, ele considerou que o final incomumente feliz para um filme noir acaba comprometendo a obra.[22]
Teste nuclear da Operação Crossroads
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Atestando seu sucesso imediato, foi amplamente divulgado que uma bomba atômica a ser testada no Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, levaria o título do filme acima de uma imagem de Rita Hayworth, em referência ao seu status de bombshell (símbolo sexual). A bomba foi decorada com uma fotografia de Hayworth recortada da edição de junho de 1946 da revista Esquire; acima dela, foi estencilado o apelido do artefato, “Gilda”, em letras pretas de cinco centímetros.[23]
Embora o gesto tivesse a intenção de ser um elogio, Hayworth ficou profundamente ofendida.[24] Segundo Orson Welles, seu marido na época das filmagens de Gilda, Hayworth acreditava que se tratava de uma manobra de publicidade do executivo da Columbia Harry Cohn e ficou furiosa. Welles contou à biógrafa Barbara Leaming: “Rita costumava ter acessos de raiva terríveis o tempo todo, mas o pior foi quando ela descobriu que tinham colocado a imagem dela na bomba atômica. Rita quase enlouqueceu de tanta raiva. … Ela queria ir a Washington para dar uma coletiva de imprensa, mas Harry Cohn não deixou, dizendo que isso seria antipatriótico”. Welles tentou convencer Hayworth de que tudo aquilo não era uma jogada publicitária de Cohn, mas apenas uma homenagem a ela por parte da tripulação do voo.[25]:129–130
Memorabilia
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O figurino de duas peças usado por Rita Hayworth na sequência da boate em “Amado Mio” foi oferecido no leilão “TCM Presents… There’s No Place Like Hollywood”, realizado em 24 de novembro de 2014, pela Bonhams, em Nova York..[26] Estimava-se que o traje fosse arrematado por algo entre US$ 40.000 e US$ 60.000; no entanto, foi vendido por US$ 161.000 (o equivalente a cerca de US$ 214.000 em 2024).[27]
Mídia doméstica
[editar | editar código]Em janeiro de 2016, a The Criterion Collection lançou versões em DVD e Blu-ray Disc de Gilda, apresentando uma nova restauração digital em 2K do filme, com trilha sonora mono não comprimida na versão em Blu-ray.[28]
Legado
[editar | editar código]Com o tempo, Hayworth passou a ressentir-se do filme e do impacto que ele teve sobre sua imagem pública. Certa vez, ela comentou com certa amargura: “Os homens vão para a cama com Gilda, mas acordam comigo”.[29] Essa frase foi posteriormente citada por Anna Scott, a atriz fictícia interpretada por Julia Roberts no filme Um Lugar Chamado Notting Hill.[30]
A atuação de Hayworth como Gilda inspirou o romance Rita Hayworth and Shawshank Redemption, de Stephen King, na forma de um pôster pendurado na parede da cela do prisioneiro Andy Dufresne, usado para esconder o buraco por onde ele escapou. Na adaptação cinematográfica da obra, o filme é exibido aos presos durante uma noite de cinema. Gilda também aparece sendo assistido por personagens em Hero, Girl, Interrupted e The Thirteenth Floor, além de episódios das séries Joan of Arcadia, The Blacklist e The Penguin.
No filme Mulholland Drive (2001), a protagonista amnésica interpretada por Laura Harring passa a se chamar “Rita” após ver um pôster de Gilda na parede.
Um trecho do filme em que Hayworth canta “Put the Blame on Mame” chegou a ser planejado para uso na residência de shows This Is It (2009), de Michael Jackson, no O2 Arena, em Londres, como parte dos visuais de “Smooth Criminal”, junto a uma cena de perseguição. Jackson seria inserido digitalmente no filme por meio de chroma key e efeitos computadorizados.[31]
O filme também já foi exibido diversas vezes no canal Turner Classic Movies a pedido de apresentadores convidados.[32] Em 2015, a atriz Diahann Carroll escolheu Gilda e expressou admiração por Hayworth e por sua atuação. As apresentadoras convidadas Joan Collins e Debra Winger também selecionaram e comentaram o filme.
Referências
- 1 2 «Wall St. Researchers' Cheery Tone». Variety. 7 de novembro de 1962. p. 7
- ↑ EWALD FILHO, Rubens (1975). Os filmes de hoje na TV. São Paulo: Global. p. 89. 210 páginas
- ↑ Grossini, Giancarlo (1 de janeiro de 1985). "Dizionario del cinema giallo: tutto il delitto dalla A alla Z". EDIZIONI DEDALO – via Google Books.
- ↑ «Gilda - review». 10 de abril de 2012
- ↑ «Gilda (1946): Charles Vidor's Erotic Film Noir–Sexual Repression, Perversion, Masochism, and Latent Homosexuality | Emanuel Levy»
- ↑ O'Sullivan, Michael (18 de dezembro de 2013). «Library of Congress announces 2013 National Film Registry selections». The Washington Post. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «Complete National Film Registry Listing». Library of Congress. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «Cinema with the Right Stuff Marks 2013 National Film Registry». Library of Congress. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- 1 2 «AFI Movie Club: Gilda». American Film Institute. AFI Catalog of Feature Films. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- 1 2 3 «GILDA (1946)». American Film Institute. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ Ford, Peter (2011). Glenn Ford: A Life (Wisconsin Film Studies). Madison: University of Wisconsin Press. pp. 62, 63 ISBN 978-0-29928-154-0
- ↑ King, Susan (11 de abril de 2011). «A Ford fiesta». Los Angeles Times (em inglês). Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «Glenn Ford: A Life – Book Notes». www.glennfordbio.com. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «Ford celebrates his 90th after 15 years of seclusion». Deseret News (em inglês). 2 de maio de 2006. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ Truhler, Kimberly (17 de outubro de 2014). «Style Essentials—Femme Fatale Rita Hayworth Puts the Blame in 1946's Gilda». GlamAmor. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «Film Reviews: Gilda». Variety. 20 de março de 1946. p. 8. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ Crowther, Bosley (15 de março de 1946). «The Screen; Rita Hayworth and Glenn Ford Stars of 'Gilda' at Music Hall». The New York Times. Consultado em 15 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 23 de agosto de 2017
- ↑ «Official Selection 1946». Festival de Cannes. Consultado em 15 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 16 de abril de 2015
- ↑ «60 Top Grossers of 1946». Variety. 8 de janeiro de 1947. p. 8
- ↑ «Gilda | Rotten Tomatoes». www.rottentomatoes.com (em inglês). Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «details.cfm - Emanuel Levy» (em inglês). Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «There's more to Gilda than just an iconic hair flip by Rita Hayworth». The A.V. Club (em inglês). 16 de janeiro de 2016. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «Atomic Goddess Revisited: Rita Hayworth's Bomb Image Found». CONELRAD Adjacent (blog). 13 de agosto de 2013. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ Krebs, Albin (16 de maio de 1987). «Rita Hayworth, Movie Legend, Dies». The New York Times. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ Leaming, Barbara (1989). If This Was Happiness: A Biography of Rita Hayworth. New York: Viking. ISBN 0-670-81978-6
- ↑ «TCM Presents ... There's No Place Like Hollywood» (PDF). Bonhams, sale 22196, lot 244, catalog for auction November 24, 2014. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «TCM Presents ... There's No Place Like Hollywood». Bonhams, sale 22196, lot 244, 24 de novembro de 2014. Consultado em 10 de janeiro de 2024
- ↑ «Gilda». The Criterion Collection. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ " Os homens sempre vão para a cama sonhando com Gilda (do filme) e se decepcionam ao acordar ao lado de Rita". O Globo. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ #RapaduraRecomenda – Um Lugar Chamado Notting Hill (1999): charme em abundância. Cinema com Rapadura. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ MJ's This Is It - Making Of: Gilda (Smooth Criminal) (EXTRAS). YouTube. Consultado em 15 de janeiro de 2026
- ↑ «TCM Guest Programmer Diahann Carroll 3of4 Gilda (Intro)». YouTube. 19 de fevereiro de 2016. Consultado em 15 de janeiro de 2026