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Marcelo Beraba

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Marcelo Beraba
Image
Marcelo Beraba em 2018 (foto: Alice Vergueiro/Abraji, CC-BY 2.0)
Nascimento
29 de abril de 1951

Morte
28 de julho de 2025

Nacionalidadebrasileiro
OcupaçãoJornalista

Marcelo Beraba (Rio de Janeiro, 29 de abril de 1951 – Rio de Janeiro, 28 de julho de 2025) foi um jornalista brasileiro. Ao longo de mais de meio século de atuação profissional, ocupou cargos de comando em grandes jornais diários do país e é descrito por colegas como uma influência na formação de gerações de jornalistas. Foi o principal idealizador e o primeiro presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).[1][2][3][4][5][6]

Biografia

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Marcelo José Beraba passou parte da infância no bairro do Rio Comprido, na Zona Norte da cidade. Estudou no Colégio Santo Inácio, tradicional escola jesuíta da Zona Sul, e passou quatro anos em um seminário antes de prestar vestibular para a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).[7][8]

Carreira jornalística

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Beraba foi aprovado em primeiro lugar no vestibular da UFRJ e, antes mesmo de iniciar as aulas, em 1971, obteve vaga como estagiário de repórter no jornal O Globo, o primeiro dos grandes diários brasileiros em que trabalhou.[9]

Seu primeiro grande furo jornalístico ocorreu em 1981, quando O Globo publicou fotografias exclusivas da cirurgia do capitão Wilson Machado, um dos envolvidos no Atentado do Riocentro. Um grupo de militares planejava explodir bombas no Centro de Convenções do Riocentro, durante um evento em comemoração ao Dia do Trabalho, na tentativa de incriminar opositores da ditadura militar no Brasil. Uma das bombas explodiu antes da hora, ferindo o capitão e matando o sargento Guilherme do Rosário. As imagens, obtidas por Beraba junto a um integrante da equipe médica, contribuíram para demonstrar o envolvimento de militares no episódio e tiveram ampla repercussão no contexto do processo de abertura política então em curso.[1][3]

Em 1984, Beraba foi contratado pela Folha de S.Paulo, jornal em que trabalhou por quase três décadas, em mais de uma passagem. Ocupou cargos como diretor de sucursal, editor de política, secretário de redação e ombudsman. À frente de grandes coberturas, ajudou a implementar uma cultura organizacional na redação da Folha. Um exemplo disso foi seu trabalho como coordenador do suplemento Diretas-89, caderno diário dedicado à primeira eleição presidencial após a ditadura militar, à frente de uma equipe que teve cerca de 60 profissionais. Introduziu uma série de técnicas de apuração, como a figura do repórter carrapato, incumbido de acompanhar todos os passos de um candidato durante a campanha.[2][9][10]

Em 1996, deixou a Folha para assumir o cargo de editor-executivo do Jornal do Brasil. Posteriormente, trabalhou por menos de um ano como editor do Jornal da Globo, da TV Globo. Após nova passagem pela Folha, ingressou, em 2008, no O Estado de S. Paulo, onde foi editor-chefe e dirigiu duas sucursais até se aposentar, em 2019. Nesse período, estimulou a formação de equipes especializadas em jornalismo de dados e a produção de reportagens preparadas ao longo de meses.[3][9]

Mesmo após a aposentadoria, Beraba permaneceu atuante em iniciativas ligadas à formação profissional e ao debate sobre jornalismo. Planejava escrever um livro sobre técnicas de apuração quando foi diagnosticado com um tumor cerebral, doença que levou à sua morte quatro meses depois, aos 74 anos.[3]

Conhecido pelos colegas como "mestre", vocativo que usava para tratar todos seus interlocutores nas redações, Beraba era visto por colegas como um exemplo de profissionalismo e ética.[4][10] Matinas Suzuki Jr., o jornalista que o convidou para trabalhar na Folha de S.Paulo, declarou o seguinte por ocasião de sua morte: "Marcelo Beraba foi um 'chef' que deu consistência à cozinha jornalística da Folha. Ele ensinou o jornal a estruturar e planejar grandes coberturas e formou uma geração de repórteres na imprensa paulista. Pautando, orientando, lembrando as perguntas que precisavam ser feitas numa cobertura, ele valia por uma escola inteira de jornalismo dentro da redação."[6]

O assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002, foi apontado por Beraba como o evento que motivou a criação da Abraji. Repórter da TV Globo, Lopes foi capturado e torturado por traficantes em junho de 2002 enquanto investigava a prostituição de menores em bailes funk do Rio de Janeiro. Sensibilizado pelo episódio, Beraba enviou uma mensagem eletrônica a cerca de 45 colegas de grandes redações sugerindo a criação de uma organização dedicada à defesa da liberdade de expressão, do acesso à informação pública e da formação profissional de jornalistas.[1][5][11]

A proposta ganhou força durante um seminário do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas. A Abraji foi fundada em dezembro de 2002 por cerca de 150 jornalistas. Beraba foi seu primeiro presidente, cargo que ocupou até 2007. Durante sua gestão, a associação estabeleceu parcerias internacionais, promoveu cursos de capacitação e se destacou pela atuação em defesa da liberdade de imprensa.[2][3][5]

Beraba atuou também pelo fortalecimento do jornalismo latino-americano e pela integração dos jornalistas brasileiros com seus colegas de continente. Foi cofundador da Conferência Latino-americana de Jornalismo Investigativo (Colpin) e integrou por dez anos o júri de prêmios concedidos pela instituição.[7]

Em 2005, recebeu o Prêmio Excelência em Jornalismo do International Center for Journalists (ICFJ), em reconhecimento às suas contribuições para o desenvolvimento do jornalismo investigativo no Brasil.[1][4]

Vida pessoal

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Foi casado com a jornalista Elvira Lobato, que trabalhou por 25 anos na Folha de S.Paulo.[4][10][12]

Referências

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